A experiência de um Padre na Casa de Jesus Sacerdote – Barretos – 2020

Revista Voz Amiga | Volume 31 | Nº 1 | Ano 2021

 

Casa de Jesus Sacerdote em Barretos. Foto arquivo pessoal da Congregação de Jesus Sacerdote.

 

A EXPERIÊNCIA DE UM PADRE NA CASA DE JESUS SACERDOTE – BARRETOS – 2020

 

Arte em Lettering Oelane Rodrigues-ONBR Arquiteturas e Letras Foto: Paróquia São Francisco de Assis Ilha de Cotijuba | Belém-Pará

A Decisão pelo Ano Sabático-Terapêutico

A decisão pelo Ano Sabático-Terapêutico numa comunidade, como a Casa de Jesus Sacerdote, não é uma decisão fácil e não pode ser tomada sem uma profunda experiência de fé e de confiança no Senhor.

Em primeiro lugar, vivi uma luta interior: aceitar que eu precisava de ajuda não era tão fácil – eu sempre fui muito “bom”, sempre tive o reconhecimento das comunidades onde passei, tudo o que eu fazia dava certo, tinha muitos amigos, era sempre convidado para muitas atividades (e sempre obtinha sucesso em tudo o que fazia!) … como EU precisaria de uma experiência como esta?!

Em segundo lugar, havia um certo sentimento de derrota e de vergonha: o que as pessoas iriam pensar/dizer? Como os outros iriam interpretar esta retirada para uma experiência assim? Todos iriam se perguntar: o que ele fez? O que aconteceu? Está sofrendo uma punição? Mas “ele”? Nossa! …

Os questionamentos interiores, as lutas pessoais, as necessidades de manter a “imagem” criada até aquele momento, tudo falava muito forte e era motivação contrária àquilo que era mais importante e que as “desculpas” que eu criava me impediam de enxergar – eu precisava cuidar de mim e do meu ministério!

Por fim, havia ainda o “medo” de enfrentar uma experiência que me faria voltar à vida de seminário – será que após tantos anos de sacerdócio (22 anos no meu caso), eu iria aguentar ser seminarista: ter horário, vida comunitária, empenhos no cuidado da casa, etc… 

A casa

Capela da Casa de Jesus Sacerdote em Barretos-SP

A Casa de Jesus Sacerdote é um lugar privilegiado em todos os aspectos e quero ressaltar alguns:

Simplicidade: não existe luxo na casa, mas também não falta nada! Somos convidados a fazer uma experiência do essencial – muitas vezes, na vida sacerdotal, vamos nos acostumando com privilégios, seguranças, e até mesmo supérfluos e isto vai nos afastando do essencial de nossa vocação: deixarmos tudo por Cristo! A casa nos oferece uma oportunidade de rever nossa vida e consagração, a partir do aspecto da “pobreza” de Cristo Sacerdote. Como vamos viajar, e estar longe, acontece que acabamos escolhendo o essencial para levar … e nos nove meses que ali vivemos percebemos que aquele pouco é suficiente para nossa vida.

Neste ano de 2020, na casa de Jesus Sacerdote, fiz uma profunda avaliação do meu estilo de vida.

Clima de recolhimento: apesar de estar no centro de uma cidade de porte médio, a casa oferece um espaço privilegiado para a oração, contemplação, busca pessoal de encontro com Deus no silêncio. A casa nos oferece uma oportunidade de rever nossa vida de “oração”, como o Cristo que se afasta, que busca o silêncio para rezar ao Pai!

Neste ano de 2020, na casa de Jesus Sacerdote, fiz uma linda experiência de encontro pessoal com Deus na vida de oração; não tenho medo de dizer que redescobri a beleza da liturgia das horas, da lectio divina, da meditação do Santo Rosário e de uma Eucaristia mais profunda (menos exterioridade e mais celebração do Mistério de Deus).

Vida comunitária: não é uma experiência muito fácil, sobretudo quando falamos de uma comunidade que se forma a partir de indivíduos muito diferentes – vindos de diferentes regiões, culturas, tradições; sacerdotes já vividos com suas convicções, certezas e “manias”. A casa nos oferece um clima oportuno e acompanhamento necessário para vivermos esta experiência em harmonia e paz.

Neste ano de 2020, na casa de Jesus Sacerdote, a experiência de vida comunitária me fez ver melhor os meus irmãos, abrir-me ao diferente, valorizar o que há de positivo em cada um, aceitar o outro como ele é. Ajudou-me também no sadio confronto das diferenças a reconhecer minhas limitações e valorizar os dons que Deus me deu.

Acompanhamento psicológico

Durante os nove meses do Ano Sabático, fomos acompanhados por uma psicóloga profissional, em encontros semanais e individuais. Profissional competente e profundamente ética, com experiência consolidada e segura. Aliado à sua competência profissional, encontramos uma mulher de fé madura e transparente, um testemunho que fala pela vida e pela sua entrega ao Reino.

Não foi fácil encontrar-me comigo mesmo, reconhecer e nomear certas experiências vividas que marcam minha história; não foi fácil assumir certas responsabilidades e traçar metas para uma renovação. Mas a competência e a fé desta profissional me ajudaram a dar os passos necessários. Sei que não encerrei o processo, mas hoje me sinto seguro para continuar os passos seguintes.

Terapia de grupo

Nesta proposta da Casa de Jesus Sacerdote, fomos acompanhados, quinzenalmente, por um padre psicólogo muito preparado e capacitado – franco, direto, aberto e fundamentado, nos ajudou a “revisitar” a nossa história, ajudou-nos a verbalizá-la, diante dos irmãos (falar para os outros ou diante deles nos ajuda a ver, organizar, elaborar, …).

Para mim, foram encontros muito profundos. Falar de mim, falar de minhas experiências foi libertador (para que fique claro, falamos somente o que desejamos, partilhamos como queremos e somos muito livres nisso!). Verbalizar o que eu estava descobrindo, reconhecer para mim e para os outros características e experiências, ver-me e mostrar-me como sou de verdade, sem necessidade de me preocupar com o que vão achar, pensar ou julgar, ajudou-me a fortalecer minha personalidade, minha liberdade diante das pessoas e da vida.

Direção Espiritual (grupo e pessoal)

Em encontros semanais, em grupo, éramos convidados a meditar e partilhar temas ligados à nossa vida sacerdotal e ao ministério que nos foi confiado. A partir de temas bíblicos e dos documentos da Igreja, refletir e fortalecer nossa opção vocacional e nossa vivência ministerial. Após o encontro em grupo, a possibilidade e o convite para um encontro pessoal com o diretor espiritual (direção espiritual e confissão) – cada um, segundo suas necessidades, decide seus próprios momentos e tempos.

Foi muito importante para mim reencontrar este tempo privilegiado de direção espiritual. Os momentos em grupo foram muito bons, reflexões e partilhas ajudaram muito. Mas devo dizer que foi, particularmente, o reencontro frequente (mensal) com o sacramento da reconciliação que mais me ajudou neste momento particular da minha vida.

Tempo “livre”.

Um elemento que julgo bastante importante, neste tempo sabático, é a utilização do “tempo livre”. Não temos muitos compromissos no dia-a-dia da casa – a proposta visa mesmo um tempo de descanso e cuidado pessoal; contudo, é preciso estarmos atentos para também não perdermos tempo.

No meu caso, aproveitei o tempo, sobretudo, para estudos bíblicos (levei alguns livros para isso), para leitura de documentos da Igreja e preparação de alguns projetos que fui elaborando nos meses que aí passei.

         Haveria ainda outros elementos que eu poderia partilhar, mas penso que estes sejam suficientes para demonstrar o quanto esta experiência foi importante e marcante em minha vida, em um momento delicado na vivência e dedicação em meu ministério. Serei sempre grato a Deus por me chamar à esta experiência, ao Padre Venturini por ser instrumento nas mãos de Deus, nesta obra maravilhosa que é a Congregação de Jesus Sacerdote e, particularmente à comunidade de Barretos (Padre Ângelo e Padre Costante), por acreditarem no projeto e nos acolherem/incentivarem com tanta dedicação e amor fraternal.

   

 

 

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