Lava-pés, “sacramento” do serviço na Igreja

          Por mais um ano nos aproximamos do Tríduo Pascal, onde reviveremos o grande mistério da nossa fé: a Vida, Morte e Ressurreição do Filho de Deus, mistério presente no Sacramento admirável da Santa Missa. De fato, o καιρóς (kairós) de Deus no nosso κρóνος (kronos), ou seja, o momento oportuno de Deus em nosso tempo, possibilita-nos uma contemporaneidade a esse mistério, o Altíssimo nos concede a graça da contemplação e participação na entrega total de Jesus até a morte de Cruz. Com o Evangelho de João, a Liturgia nos introduz no momento do Lava-pés, que é o ponto culminante que vamos refletir nesse artigo.

        Antes precisamos entender que segundo interpretações, os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, também chamados de Evangelhos Sinóticos, apresentam essa autoentrega de Cristo de duas formas: misticamente, com a Instituição da Eucaristia na Quinta-feira Santa e, como fato concreto na Sexta-feira que antecede a Páscoa, enquanto o evangelho de João narra somente o momento da cruz. Trata-se, no entanto, de um mesmo acontecimento.[1]

          Interessante que a Tradição da Igreja nos coloca, na liturgia da Quinta-feira da Semana Santa, dois relatos provindos de tradições diferentes. As leituras mostram – além da prefiguração eucarística no cordeiro do Êxodo – acerca das ações de Jesus, textos da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios e do Evangelho de João. Só entenderemos a distinção dos textos e o sentido único dos mesmos, quando aceitarmos que ambos certamente foram escritos para sanar necessidades diferentes, mas que no fundo nos relatam uma mesma ação: a doação total de Jesus, que deve ser revivida na vivência das comunidades.

          Inegavelmente, Paulo preocupa-se com a necessidade de suas comunidades entenderem e viverem o ritual eucarístico, aquele memorial tem uma grande importância para a comunhão. Na descrição da última ceia, o Apóstolo afirma ter recebido do próprio Cristo o que passou ao povo na Carta aos Coríntios (1Cor 11, 23), ou seja, a memória do mistério salvífico, certamente para que este mesmo mistério continuasse a ser celebrado. Os sinóticos seguem basicamente a mesma estrutura do relato, portanto, podemos perceber, nessas narrativas, que o foco era uma visão da Eucaristia como celebração, em torno da qual subsiste a comunidade.

          Na história, referente às interpretações dos textos, não faltou quem dissesse que o quarto evangelho – por ter sido escrito mais tarde – era uma espécie de complementação dos sinóticos, hoje sabemos que isso é uma inverdade. O que se pode dizer é que a narrativa joanina, do final do século I, quando as comunidades estruturavam-se em torno de certa organização hierárquica, muito necessária – diga-se de passagem – apresenta um olhar ao essencial do cristianismo: o amor. A partir do amor é que tem sentido o movimento cristão, a formação e o crescimento das comunidades.

          Com a Instituição da Eucaristia, o gesto do Lava-pés é colocado no contexto da última ceia de Jesus com seus discípulos. Com isso, João aponta a questão do serviço, exemplificando que os líderes devem ser aqueles que se colocam à disposição dos demais, portanto, o seguimento de Jesus insiste em caminhar na contramão do mundo. Aqui o maior é quem se coloca diante do menor como servidor. A comunidade é carismática, nela os dons não são motivos de regalias, mas de serviço para o crescimento de todos. Liderar é um carisma como os demais, portanto o que deve acompanhar essa missão é a doação.

          Na ação de Jesus está expressa a humildade, ele dá o exemplo além das palavras, imprimindo em seus discípulos a ideia de que em uma comunidade não deve haver distinção a não ser no modo de operar, e esta ação deve apontar para uma organização e um bom andamento missionário, em outras palavras, a diferença está nos dons, enquanto que no serviço prevalece a igualdade: todos servem.

          Em Paulo e nos sinóticos, com a narrativa da Instituição da Eucaristia, aparece a doação total de Jesus que se entrega misticamente quando diz: “Isto é o meu corpo que é dado por vós” (Lc 22,19) e “essa taça é a nova aliança em meu sangue que é derramado por vós” (Lc 22,20). Como aludimos acima, essa entrega é tornada fato no Sacrifício Redentor de Jesus na cruz, ali Cristo se entrega ao Pai pelos pecadores. João não se distancia disso, ele apresenta a última ceia do Mestre com o mesmo teor, no Lava-pés. Na época, aquele trabalho era próprio do serviçal, e ali estava a doação de Jesus servo de Deus e da humanidade, João expressa assim a humildade escandalosa de Jesus que sabia que o Pai “tudo pusera em suas mãos e que ele viera de Deus e a Deus voltava” (Jo 13,3). Logo, quem lê a Carta aos Filipenses notará que o capítulo 2, 6 – 7 relata basicamente a mesma coisa: Ele sendo de condição divina não se apegou ao ser igual a Deus, mas revestiu-se da humildade do servo.

          Santo Agostinho, no comentário ao Evangelho de João nos diz: “admira-se que derramou água numa bacia para lavar os pés dos discípulos aquele que derramou pela terra o seu sangue, a fim de destruir a imundície dos pecados?” [2] O grande mistério que o relato joanino coloca diante de nós é que sendo Jesus o sacerdote eterno, como diz a Carta aos Hebreus capítulo 7, eleva o ato a uma ação sacerdotal.[3]

          Convinha que a Igreja, Esposa de Cristo, que continua a sua obra no mundo até que Ele venha, continuasse a sua missão de servir e doar-se em favor dos homens, na condução deles que peregrinam para o céu. Convém que aqueles a quem o Cristo confirmou pela Sagrada Ordenação para agirem na Igreja in persona Christi, se “revistam dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5). Eis a razão de ser do sacerdócio: o serviço; o doar-se; o gastar-se e desgastar-se pelo outro, como Jesus fez. Eis a razão de ser dos cristãos leigos e leigas: imitar a Cristo.

          Podemos, por fim, enxergar um paralelo entre os textos bíblicos da Instituição da Eucaristia de tradição paulino/lucana, o relato joanino do lava pés e o capítulo 2 da Carta aos Filipenses (Fl 2,5) manda-nos revestir dos sentimentos de Cristo, enquanto Lucas (Lc 22,19) e  Coríntios (1Cor 11, 24) convida a Igreja a fazer memorial da sua total doação. Em João 13, 15 Jesus diz: “Como eu o fiz, também vós façais”. Eis a grande missão da Igreja, eis o grande testamento de Jesus à sua Esposa Imaculada, sem mancha nem ruga, eis a ordem divina: servir. Servir é próprio do humilde, “é tão grande a utilidade da humildade que até a sublimidade divina a encarecia com seu exemplo. O homem de soberbo que é, morreria de morte eterna, se não viesse encontra-lo Deus humilde.”[4]

 

 

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Ismael Félix
Seminarista no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Desterro de Jundiaí – SP, cursou Filosofia pela Faculdade São Bento de São Paulo (2015 – 2017) e atualmente é aluno do 5º semestre de Teologia pelo Centro Universitário Salesiano, Unisal, campus Pio XI.

 

 

Notas e Referências bibliográficas

 

[1] Cf. CANTALAMESSA, Raniero. O Mistério da Ceia. Aparecida – SP: Ed. Santuário, 1993, 15ª impressão p. 13.

[2] SANTO AGOSTINHO. Evangelho de João comentado por Santo Agostinho vl. IV: a ceia do Senhor. Versão do Latim por Pe. José Augusto Rodrigues Amado. Coimbra, Portugal: Grafica de Coimbra, 1952. p. 14.

[3] Cf. BOSLLI, Goffredo. O sentido espiritual da liturgia. Brasília – DF: ed CNBB, 2014. p. 30.

[4] SANTO AGOSTINHO. Evangelho de João comentado por Santo Agostinho vl. IV: a ceia do Senhor. Versão do Latim por Pe. José Augusto Rodrigues Amado. Coimbra, Portugal: Grafica de Coimbra, 1952. p. 15.

 

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