As razões da nossa esperança

“Embora do meio de tribulações e crises. O verdadeiro crente sabe regozijar-se no Senhor também quando a figueira não brota, a videira não dá uva e falta o fruto da oliveira.” (cf. Hb. 3 17)

 

Neste ano os padres são convidados ao esforço de entreajuda para descobrir e apresentar ao mundo as razões da sua esperança.

 

1. A queda de grandes utopias desafia a esperança cristã.

 

          É necessário, antes de mais nada, tentar uma leitura de fé da nossa história: nós todos somos filhos de um tempo que apresentou aos homens perspectivas e promessas de um mundo renovado, mais justo, em paz: o mundo ocidental desejava eliminar as imagens de guerra e abrir as fronteiras; o mundo oriental procurava justiça nos princípios do socialismo; o terceiro mundo pretendia se libertar definitivamente de todas as forças exploradoras, mas aconteceu que as fronteiras não tiveram boa sorte; o socialismo, em dificuldades por causa de suas contradições, não respondeu às expectativas; mesmo os países pobres, chegados a independência, muitas vezes caíram no drama das divisões internas tribais.

          As consequências manifestaram-se: muitos perderam a garra, ficaram sem razões para trabalhar e até para viver, procuraram saídas nas drogas ou na violência. É possível compreender como tudo isso teve repercussões dentro da igreja, onde se deram os fenômenos de notável tensão: abertura ao espírito e as forças reacionárias; compromisso como o presente e fuga ao futuro; novo impulso à evangelização e desafios do secularismo; tomada de responsabilidade dos leigos e saída de padres e religiosos; os presbíteros com suficiente clareza de posição dentro do povo de Deus, mas atuando em comunidades sempre mais reduzidas e dispersas. O Brasil, em particular, viveu e vive ainda a grande esperança de um renascimento histórico e luta contra formas de violência e de injustiça, inclusive de doenças, que pareciam eliminadas.

          Os padres são chamados a viver estas tensões e contradições da sua pele, mas, ao mesmo tempo, solidários com seus fiéis; poderão eles encontrar uma saída a luz da palavra e meditando nas lições da história?

 

2. O homem bíblico nos orienta na busca de razões de esperança.

          Neste conjunto de fenômenos e acontecimentos, os cristãos não ficam indiferentes; conforme o modelo herdado, enraizado na experiência até do homem bíblico, procuram os sinais da passagem de Deus na história.

          Os salmos, os profetas, os livros sapienciais, como sobretudo a atitude dos primeiros cristãos que no mundo de então deviam dar as razões de sua opção, nos convida a encarar a realidade para descobrir uma presença de Deus que está “na obra” e se manifesta muitas vezes tão diferente do que achávamos: Jó, no fim de sua revisão de vida, exclamava: “meus ouvidos tinham escutado falar de ti, mas agora os meus olhos te viram” (Jó 42,5).

          Na sua fé, os cristãos reagem também a nível comunitário: sabem parar para ler, para julgar, para tomar suas decisões, apesar de todas as ameaças (cf. At 4, 23s). O homem bíblico nos ensina, em terceiro lugar, a aceitação da lei do resto de Israel que aparece no evangelho como lei do grão de trigo; sabemos que Israel entendeu o sentido de sua história quando de fato se tornou “o menor de todos os povos”; e Jesus, aceitando sua paixão e morte, não só encontrou sua glória, como se tornou salvador de todos os homens (Hb 5, 7ss), um resto do antigo Israel, um pequeno rebanho no novo povo de Deus, esses são os instrumentos do anúncio do Reino de Deus.

          Claro que a aceitação da pobreza radical como também da perspectiva da cruz não é fácil. Os cristãos de Corinto nos avisam; mas, pela ajuda do apóstolo, foram igualmente descobrindo o Cristo como chave única para a solução dos seus problemas.

          Assim os cristãos de hoje, na luta, tentam procurar as razões da sua esperança. “não temais as suas ameaças. Santificai em vossos corações Cristo, Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir as razões da vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito” (1 Pd 3, 15).

          As condições do nosso tempo até poderiam se nos apresentar como um beco-sem-saída, como sem saída aparecia a Paulo a condição de homem não redento (cf. Rm 7, 24); Mas, como naquele contexto, aqui também se pode gritar com o Apóstolo: “Graças sejam dadas a Deus, por Jesus Cristo Senhor Nosso!”. A lei do espírito da Vida em Cristo Jesus nos liberta. Nele nos tornamos filhos, herdeiros e ponto de referência para todas as criaturas que ficam esperando a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rm 8,21) .

          A esta palavra ficamos ancorados, embora do meio de tribulações e crises. O verdadeiro crente sabe regozijar-se no Senhor também quando a figueira não brota, a videira não dá uva e falta o fruto da oliveira (cf. Hb. 3 17).

 

3. Homens de esperança.

 

          Ver a realidade e julgá-la à luz da palavra de Deus abrem o caminho para uma vida comprometida num testemunho de esperança. Algumas sugestões oferecidas pela experiência poderiam nos orientar:

 

  1. Admitir a crise, vista como momento providencial para tomar consciência da realidade e oferecer novo alento na caminhada;
  2. No mundo tão marcado por opções morais diferentes da cristã (ou também por falta de opções) impõe-se a procura de uma base comum: conhecer as razões deles, coragem do nosso testemunho cristão, justificação das nossas escolhas de fé a partir das suas dificuldades. No clima tão diferente, daria para repetir as palavras de São Tiago: “pelas minhas obras mostrar-te-ei a minha fé”(Cf, Tg 2,18);
  3. Assim como é bom procurar na vida do povo e dos povos as “sementes do verbo de Deus”, também se apresenta a necessidade de abandonar formas religiosas e rituais que perderam o conteúdo pela mudança dos tempos. O Papa João Paulo II, na Bélgica, falou de uma segunda evangelização dos países cristãos, dentro da nova condição secular, isto se torna o desafio da pastoral da Europa, como aqui na América Latina é a pastoral que luta contra todo tipo de injustiça. “Ai de mim se eu não anunciar o evangelho!” (1Cor 9. 16);
  4. E se acontecer que a evangelização desce frutos de divisão como em Corinto? A história nos avisa que só é bom evangelizador quem fica discípulo da palavra; mesmo a comunidade seria estéril quando pretendesse transmitir o Evangelho conforme a sua medida;
  5. Esta palavra só se apresenta como proposta para Liberdade do homem: não é imposição, não tira a responsabilidade, não oferece receita aos problemas concretos, mas grandes orientações para o caminho; não quer proteções humanas, só se apresenta como força de salvação a todos que reconhecem o seu pecado (Rm 1, 16s). Nossa esperança encontra seu fundamento neste evangelho tão desprotegido;
  6.  Quem, como Paulo, não se envergonha deste evangelho tem condições para superar o medo, a vontade de isolamento, a tentativa de cobrir os problemas, a fuga para um passado de saudades ou para um futuro de utopias. A Palavra do Senhor (At 18, 9s) ainda ressoa com força: “Não temas! Fala e não te cales. Porque eu estou contigo.”

 

          O convite à esperança no tempo no qual as utopias caem, poderia ser mais tematizado. Porém, o nosso desejo, era apenas de nos colocar diante do problema, renovando a vontade de presença neste mundo: numa atitude de escuta, discernimento e proclamação da boa-notícia de Jesus, respeitosa do caniço rachado e da mecha fumegante, mas também, cortante como uma espada de dois gumes.

          Na intimidade da oração, vamos buscar no coração de Cristo Sacerdote as razões da nossa esperança. São as mesmas que sustentavam Maria enquanto meditava nos mistérios da salvação.

 

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Padre Primo Telch, CJS.
Foi Mestre em Teologia Moral pela Accademia Alfonsiana – Istituto Superiore di Teologia Morale. Foi um homem de reflexão e de estudo, amante do conhecimento, da verdade, da escritura, da vida do homem, pregador de exercícios espirituais, docente de ciências morais, escritor nas revistas na Itália e no Brasil.

 

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