“Sacerdotes suicidas” um grito ainda não ouvido…

 

Precisamos pensar além de rezar. Precisamos agir além de pensar. O suicídio nada mais é do que uma solução definitiva para um problema provisório, uma maneira equivocada de acabar com o sofrimento e a dor. Pensando nesta realidade, existem fatores protetivos e de riscos. Precisamos pensar também na prevenção.

 

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          Infelizmente, não é mais novidade, que a interrupção voluntária da vida chegou ao presbitério católico! Entre 2017 e 2018, clero e leigos ficaram alarmados quando quase 20 sacerdotes tiraram a própria vida. O que está acontecendo com os padres no Brasil?

          Uma pesquisa de 2008, apresentada no Congresso do ISMA Brasil, organização de pesquisa e tratamento do estresse (www.ismabrasil.com.br), apontou que a vida sacerdotal é uma das profissões mais estressantes da atualidade. Já naquela ocasião, 448 entre 1,6 mil padres e freiras entrevistados (28%) se sentiam “emocionalmente exaustos”. O percentual de clérigos nessa situação era superior ao de policiais (26%), executivos (20%) e motoristas de ônibus (15%).

          Também em 2008, uma tese de doutorado intitulada “Stress, burnout, coping em padres”, foi assessorada por Edênio Valle (que já escreveu sobre os padres) pela PUC de São Paulo. A autora foi Maria de Fátima Alves de Morais, que já nos chamava atenção do que vivíamos e viveríamos…

          Durante o Curso dos Bispos no Sumaré (RJ), neste ano de 2020, a psicóloga Luciana Campos, foi chamada para falar sobre “Esgotamento existencial dos presbíteros: causas e pistas para ação das dioceses na prevenção e tratamento”. A ênfase dada foi na Síndrome de Burnout, caracterizada pelo esgotamento emocional, psíquico e laboral oriundo do excesso de trabalho, o que confirmaria a pesquisa do ISMA de 2008. Também no curso anual do clero de Sergipe, em Março deste ano, a saúde mental do clero foi o tema abordado.

          Preparado para ser pastor 24 por dia, dizia a psicóloga Luciana no encontro do RJ, o sacerdote é sugado o tempo todo e se dá desmedidamente, até que começa a sentir os efeitos dessa doação desacerbada. Essas palavras me fizeram lembrar o que um pastor evangélico, também escreveu, antes de cometer o suicídio. Trata-se de Lisandro Canes, que pastoreava no Rio Grande do Sul. Suas últimas palavras: “Eu admito que nunca em toda a minha vida eu fiz algo tão esgotante e cansativo como pastorear. Nenhum trabalho ou responsabilidade consumiu mais as minhas energias e minha saúde do que liderar uma Igreja”.

Arquivo Pessoal da Congregação de Jesus Sacerdote – Padre Pio

          Aqui, partilho duas impressões pessoais. Embora o fenômeno do suicídio aconteça também entre os pastores; eu acredito que nós presbíteros, temos ainda duas grandes desvantagens em relação a eles: A complexidade de nossa atividade pastoral-sacramental e a ausência da família como rede de apoio.

          Independente das causas que levam o sacerdote ao suicídio, tudo indica, que na maioria dos casos, a forma de se relacionar com a solidão e o fator isolamento tem sido letal! Por que fomos formados em comunidade e vivemos sozinhos? Por que acabamos sofrendo sozinhos? De onde vem essa dificuldade de falar o que sentimos? Por que estamos abandonados? Por que não cuidamos um do outro? Por que entre nós não há a confiança e a parceria existente entre os outros grupos sociais? Onde anda aquela fraternidade sacerdotal sonhada pelo Vaticano II? Por que teremos que morrer sozinhos? Quantos padres ainda se suicidarão? O que foi feito nas dioceses onde houve óbitos? O que as pastorais presbiterais estão fazendo?

          A depressão é outra possível causa do suicídio entre os padres. Minha preocupação é que hoje, dezenas de seminaristas já estão vivendo com ansiolíticos e antidepressivos, o que na minha geração, jamais seria imaginável. Como estão sendo vistos, acolhidos e tratados os padres depressivos? As pesquisas dizem atualmente que entre 90-95% dos suicidas apresentavam transtornos psiquiátricos no momento da morte. Há uma correlação importante, sobretudo, entre o suicídio e a depressão.

          Lamentável, uma postagem de um médico no ano passado, em relação a um encontro com um sacerdote:

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“Encontrei com um velho amigo, sacerdote da igreja católica. Após os cumprimentos, ele não perdeu tempo: Que bom que o senhor é médico, estou precisando de uma receita de Rivotril, com urgência. Senti a dependência! Respondi que não exercia a clínica psiquiátrica e que nem receituário eu possuía. Perguntei: por que o senhor não procura o seu médico? “Que médico, ele respondeu. É difícil uma consulta psiquiátrica pelo SUS.” Entranhei, achava que a igreja tinha um plano de saúde para os padres pobres. Percebi que o sacerdote, já idoso, padecia de um transtorno neurológico, um leve tremor nas mãos e cabeça. Me disse que morava só, numa casinha nos fundos da Paróquia e que também sofria de diabetes. O padre acrescentou que vivia franciscanamente, comendo de marmita popular, duas vezes ao dia. Uma vida de penitência. A paroquia dele é pobre e o que arrecada é muito pouco. O padre padece de uma depressão profunda, visível, só dorme com tarja preta. Ainda não apelou para o suicídio, pelo temor de Deus. O sofrimento mental não poupa nem o baixo, nem o alto clero. A demência é democrática. O meu amigo se mostrou temeroso pelo futuro. Não tem família por aqui, nem ninguém para cuidar dele. Daqui a pouco começará a perder a autonomia e, Deus me perdoe, as demências não livram nem as ovelhas, nem os pastores. Não é da minha conta, mas vou dizer: a igreja deveria prestar mais atenção para o sofrimento mental dos seus sacerdotes. Casos de depressão e ansiedade são frequentes. Deveria pensar também em criar uma instituição para receber os padres idosos, no final da vida. Eles não possuem filhos, e a imensa maioria não acumulou cabedal, para pagar aos médicos e cuidadores” (Antônio Samarone).

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          No mês de março passado, elaborei, juntamente com a psicóloga curitibana Ariana Mamcarz, uma pesquisa que intitulei “O impacto da pandemia no comportamento sacerdotal”. Infelizmente, tivemos um retorno pouco expressivo. Ao todo, apenas 572 presbíteros brasileiros responderam. Não obstante, já pode ser o início de uma modesta reflexão. Grande parte das respostas vieram dos diocesanos (86, 7%), com idade entre 36 a 45 anos. 49 % foram da região Sudeste, seguidos do Nordeste (24, 3%), Centro Oeste (12, 6%), Norte (7, 7%) e Sul (6 %).

          Deste pequeno universo, o que se respondeu sobre o suicídio me parece também significativo. Dentre eles, 15, 6 % tiveram durante o início da pandemia, pensamentos suicidas. Quando perguntados a quem pediram ajuda, eis aqui o quadro: 31, 8 % pediram ajuda aos amigos leigos mais próximos, 21 % procuraram outros padres, 18 % buscaram ajuda nos familiares e 7, 9 % nas redes sociais. Precisamos pensar…

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          Depois do suicídio dos dois padres franceses na semana passada, e a declaração do bispo que girou nosso pequeno mundo clerical, fiz uma pesquisa menor apenas com meus grupos e contatos. Novamente se confirmou a porcentagem de 15 % dos presbíteros que pensam no suicídio. Perguntados sobre as três possíveis causas de suicídio entre os padres, vejam as respostas em grau de superioridade: Solidão, Depressão e Falta de oração. Outros três motivos foram relevantes: Cansaço, Falta de Amizades sólidas e decepção com a hierarquia.

          E durante essa semana, no mês do setembro amarelo, mais um sacerdote no Brasil tira sua própria vida! Mais uma vocação, mais uma tragédia silenciosa e abafada, mais um grito. Quem de nós será o próximo?

          Particularmente, com muito temor e tremor venho pensando e rezando algumas possíveis explicações, que partilho sem nenhuma pretensão:

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    O modelo-padrão, que se estabeleceu e que se pede hoje, para um presbítero é duro, muitas vezes surreal e inalcançável…

  • O não entendimento da nossa “Vulnerabilidade” (Fomos formados para sermos super-homens que vão salvar a humanidade decaída; quando na verdade, recebemos a imposição das mãos sem conhecermos nossa própria humanidade!);
  • Não recebemos durante a formação, (Vejam a posição do Padre Luigi Rulla, autoridade neste assunto) nada que nos tornasse psicologicamente mais saudável e maduro do que as outras pessoas;
  • No período da formação nada se falou sobre saúde mental. Nunca falamos de suicídio entre nós, nem tão pouco das numerosas psicopatologias do cotidiano, que também estão presentes nos formadores, seminários e no clero;
  • Em geral, não há afeto genuíno entre nós. Não temos tempo para amar, temos que administrar paróquias e celebrar sacramentos, cuidar de obras…
  • Sofremos cotidianamente várias pressões: A nossa própria, a do bispo e do superior, a da mitra, a do povo, da sociedade, da família de origem, a do diabo…
  • Falta entre nós o que tenho chamado de “Empatia sacerdotal”;
  • Somos tratados muitas vezes, aqui no Sul mais ainda, como empregados de uma grande empresa.
  • A dificuldade de encontrarmos os nossos pais. Nossos bispos, em sua maioria esmagadora, não possuem atenção nem tempo de qualidade para conosco. Somos removidos de paróquia pelo WhatsApp. Nossas vidas se ‘resolvem’ por decretos ou recados enviados por representantes…
  • A ausência de verdadeiras redes fraternas de apoio;
  • A dificuldade de encontrarmos lugares onde nos abrir sem sermos julgados e condenados;
  • A dificuldade de encontrarmos profissionais católicos que nos ajudem;
  • Não temos lugares que nos acolham, em nome da Igreja, quando estamos nesta dor invisível…
  • Temos imensa dificuldade de encontrarmos um diretor espiritual;
  • Além do excesso (e muitas vezes, injusta sobrecarga) de trabalho a que estamos submetidos, temos uma insuficiente vida espiritual para nossa condição e existência presbiteral
  • A solidão tem sido devastadora! Em 2004, eu encontrei pessoalmente o Cardeal Ratzinger, e ele me disse: “A Fraternidade entre vocês é necessária, porque os padres diocesanos se sentem sozinhos”.

          Ainda essa semana, conversando com um psicóloga, que atende muitos consagrados no Brasil, me foi pontuado alguns fatores que também partilho:

  • A grande falha da formação (falta humanização na figura do presbítero);
  • A necessidade de uma perfeição que parece impedir a própria transparência diante de sua real realidade;
  • A questão da confiança entre nós. Se pode falar de vínculos entre nós?
  • O Sofrimento silencioso dos que têm medo de serem julgados pelas sombras de sua humanidade;
  • O padre não pode ser ele mesmo…
  • A questão da solidão do padre diocesano.
  • A questão do suicídio é tentar acompanhar o padre de perto!

          Precisamos pensar além de rezar. Precisamos agir além de pensar. O suicídio nada mais é do que uma solução definitiva para um problema provisório, uma maneira equivocada de acabar com o sofrimento e a dor. Pensando nesta realidade, existem fatores protetivos e de riscos. Precisamos pensar também na prevenção. Luciana escreveu sobre a “dor invisível”. Eu quero crer que essa dor presbiteral hoje é alarmantemente visível!

          A Cultura do encontro, tão pedida e vivida pelo Papa, precisa ser primeiramente experimentada entre nós. Onde aplicamos o tema da “Proximidade Sacerdotal” que o Papa pediu os presbíteros brasileiros? Precisamos perceber a dor uns dos outros! Precisamos cuidar uns dos outros. Precisamos criar vínculos de amor genuíno, refazer vínculos paternos e fraternos, discernindo a mensagem oculta atrás de cada batina, de cada túnica, de cada postagem, de cada fala, de cada excesso de exposição nas redes, de cada ausência na reunião ou no retiro, de cada sinal de doença, de cada grito silencioso ou eloquente. Precisamos de mais lazer, de mais vida social. Precisamos de relações mais humanas e humanizadas!

Arquivo Pessoal da Congregação de Jesus Sacerdote – Padre Adenilson

          Vida e morte sempre habitarão entre nós. A morte não nos venceu. O Ressuscitado é nosso Mestre! Somos homens ressuscitados! Em nós habita o Espírito que é o Senhor que dá a Vida! O Papa Francisco nos ensinou na Evangelli Gaudium: “Nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder” (EG 3).

          Que a vida queime dentre em nós, que o amor volte a habitar nossos presbitérios antes que o Senhor venha! Seria digno e justo sufragar pelos nossos irmãos que não aguentaram o peso da vida e do ministério.

          Enquanto nosso grito não for entendido por nós e ouvido pelos outros, gritemos com as palavras do salmista na liturgia de hoje: “Senhor, sondai-me, conhecei meu coração, examinai-me e provai meus pensamentos! Vede bem se eu não estou no mau caminho e conduzi-me no caminho para a vida!” (Salmo 138).

 

 

 

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Padre Eduardo Braga.
Mestre de Teologia Dogmática pela Universidade Gregoriana em Roma (Pontificia Università Gregoriana)

dudubr2000@hotmail.com

 

 

 

 

 

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