Formação Teológica – O Celibato e Auto-Realização.

FORMAÇÃO TEOLÓGICA

Revista Voz Amiga | Volume 32 | Nº 1 | Ano 2022

 

O CELIBATO E AUTO-REALIZAÇÃO


 

O problema

 

Fotografia: freepik.com

Muitos discutem sobre a lei do celibato, quem para defendê-la, quem para atacá-la. Outros defendem a sua conveniência ou sustentam a Inconveniência.

Para mim, são aspectos interessantes, mas não centras. A mim, que sou celibatário, sempre interessou um problema mais direto: “O celibato ajuda minha realização ou a prejudica? E em que modo?”

Falo em realização no sentido mais genuíno e nobre da palavra: “Ajuda-me a cumprir a missão que o Criador me confiou, desfrutando de modo melhor os talentos que Ele me deu? Posso ter uma vida frutuosa e feliz?” Alcançar esse objetivo, para mim significa ter uma vida útil, sentir-me realizado e satisfeito no sacerdócio e na vida religiosa. Se não alcançar isso, serei uma pessoa frustrada e triste, com uma existência Improdutiva. Deus me livre!

Examinei então as perdas e os ganhos da condição celibatária.

Nela eu devo renunciar:

  • ao uso do sexo, ao amor conjugal, à paternidade física.

São valores muito importantes na vida de cada um, contudo, ganhamos:

  • o autocontrole dos Instintos,
  • o amor universal,
  • a paternidade espiritual.

Quero examinar detalhadamente estes três pontos.

  1. Renúncia sexual e autocontrole dos instintos.

O primeiro problema que se apresenta ao Jovem aspirante ao sacerdócio ou vida religiosa é a renúncia ao uso do sexo genital. Ele sabe que abraçar o celibato significa renunciar para sempre a esse uso. E mais vezes experimenta a dificuldade de controlar os próprios Impulsos sexuais. Então lhe brota espontânea a pergunta: “Será possível uma continência serena por toda a vida?

A resposta afirmativa a Interrogação é confirmada pela experiência de todos os consagrados autênticos, que floresceram na Igreja desde o começo do cristianismo. É confirmada ainda mais, pela vida de casais, que, constrangidos a viver longe um de outro por temporadas cumpridas, se conservam castos.

Contudo essas pessoas alertam: O controle sereno do instinto depende de uma doação total ao gênero de vida escolhido, Junto com um treinamento ao controle de SI, ao exercício de uma vida austera, comprometida com Ideais nobres e ao cuidado para evitar qualquer excitação sexual indevida.

Em outras palavras; para alcançar o autocontrole sexual, uma pessoa deve procurar o autocontrole geral de si mesmo. Dada a posição central do instinto reprodutivo na vida humana, o descontrole em qualquer parte do nosso ser provoca uma “brecha” no controle do Instinto sexual. Por Isso, quem não domina a própria gula, não domina o sexo; quem não domina a fantasia, o coração, os olhos, as manifestações afetivas, não se treina no bom uso do tempo, não conseguirá manter-se casto.

Fotografia: freepik.com

Mas, se isso parece condenar a uma vida dura, na realidade constitui o segredo para uma vida frutuosa, dinâmica e nobre. No campo humano, antes que no sacerdotal. De fato, foi observado que, para muitos aspirantes à vida religiosa ou sacerdotal, o problema maior não é o celibato. Existe neles um problema mais profundo. O da castidade. Quer dizer o problema do controle do próprio Instinto sexual. Que depende de um problema ainda mais geral: a capacidade e o treinamento ao controle de si mesmo:

Na raiz está uma cultura leviana, que justifica a satisfação de todos os caprichos. Jovens que levantam quando querem, trabalham e estudam quando e como querem, assistem qualquer coisas não frutuosas, leem qualquer revista, se entregam fácil as relações afetivas, não só não conseguem observar a castidade, mas não alcançam nenhum objetivo nobre. por este caminho nem serão bons profissionais e menos ainda bem sucedidos na família.

A primeira condição para uma vida elevada é tornar-se donos de si. é treinar para usar todo o minuto de tempo no modo mais produtivo, com um horário que breca qualquer desperdício de tempo e de energias, isso vale para quem aspira ser cientista, campeão esportivo, ou simplesmente ser alguém na vida. distinto da massa anônima dos medíocres, meio fracassados. vale ainda mais para quem aspira à uma vida celibatária.

Quem aspira a uma vida de perfeita castidade não pode ser um jovem relaxado, comodista, preguiçoso. Deve alimentar altos ideais e treinar para alcançar o controle dos instintos, da fantasia, das emoções, usando bem o tempo e as energias, para dar passos largos na consecução do Ideal.

Sendo assim, a exigência da castidade celibatária, constitui o estímulo mais poderoso para alguém estar sempre em forma, treinado para uma vida nobre e produtiva, superior a média comum. Vale a pena!

  1. Renúncia do amor conjugal

Vale a pena, se todo esse esforço for para alcançar um Ideal nobre. Esse Ideal é o amor a Deus e aos Irmãos, um amor universal, que abraça toda a humanidade e frutifica na paternidade espiritual. Para alcançá-lo é necessária uma Segunda renúncia, para alguns mais forte do que a primeira. É a renúncia ao amor 

Conjugal de uma mulher, como a qual partilhar alegrias e dores, lutas e vitórias, companhia e colaboração. o consagrado permanecerá solteiro, radicalmente sozinho e, mais vezes, essa solidão lhe será pesada.

em contrapartida será mais livre de companhias, às vezes atrapalhadoras, e levando a procurar outras companhias mais úteis e outros amores mais Nobres: a Deus e a oração, a causa do Reino de Cristo e da elevação da humanidade, o amor aos pobres, aos humildes, as crianças, jovens e idosos. Numa palavra: substitui o amor conjugal com um amor universal, que pode ser vasto quanto o universo, e Visa diretamente o bem espiritual e eterno das pessoas.

Sendo assim, este segundo aspecto do celibato, não comporta uma Renúncia, mas uma substituição. ao amor para uma mulher substituímos o amor a Deus, a Jesus Cristo. ao amor a uma família, substituímos o amor a família universal dos filhos de Deus.

alguém dirá que também os casados fervorosos amam a Deus, a igreja, o povo. Certamente; mas é um amor dividido entre a preocupação com a família e o serviço à igreja, o cuidado do lar e o cuidado a casa de Deus. O consagrado ama a Deus e ao seu povo com um amor total, dando a esse amor todo o seu tempo e suas energias.

O leigo comprometido serve na comunidade eclesial no tempo de livre. o consagrado serve a tempo integral e é disponível a qualquer serviço em qualquer lugar. o casado poderá ser disponível só na medida em que a família lhe permitir. O amor do consagrado a Deus e à igreja é qualitativamente superior ao amor de um casado.

Este pode amar até mais intensamente seus familiares e doar-se a eles com maior heroísmo do que um pároco ama e se doa aos paroquianos, ou uma Irmã se dedica aos doentes, órfãos, Idosos… Contudo o casado ama algo que é seu, parte de si, continuação de sua vida. ama a família, que é sua, seu lugar de vida, seu Amparo e realização.

O consagrado ama e se dedica a pessoas que não tem nenhum vínculo de sangue com ele: muitos, depois de ter sido beneficiados, nem voltarão sequer para agradecer. É um amor desinteressado, animado pelo desejo de fazer o bem pelo bem, sem olhar a cara de ninguém; e é dirigido diretamente ao bem espiritual dos assistidos. preocupamos nos com a parte mais nobre das pessoas, assim como a parte mais frequentemente esquecida.

Este amor nobre e universal, pode realmente empolgar a pessoa , estimulando-a para obras heroicas. Pode dar as alegrias mais puras e elevantes, junto com um sentimento de dignidade e plenitude. Porque é uma vida de amor, que se concretiza todo dia e toda hora, tanto da oração de intimidade com Deus e intercessão para o povo, como no exercício do Ministério, nas obras de formação, assistência e Caridade. É tudo um doar-se a pessoas amadas e um constatar que esse amor frutifica, fazendo crescer a comunidade dos irmãos, filhos do mesmo pai, livres de vícios e produtivos na virtude. 

  1. Paternidade espiritual

Isso dá a experiência da paternidade espiritual. Como o amor conjugal frutifica nos filhos, assim o amor do consagrado para Cristo e sua Igreja, frutifica produzindo filhos espirituais. As pessoas amadas e assistidas, recebem, por meio nosso, uma nova vitalidade espiritual.

No celibato renunciamos à paternidade física Mas essa terceira também, é uma substituição. Aos filhos gerados fisicamente sucedem os filhos gerados pela palavra, o exemplo, a atividade pastoral. O mestre, que instrui os alunos, gera de verdade a ciência neles, que será filha do saber dele. A catequista, que educa as crianças, gera nelas Ideais e hábitos de vida, que são “parto” da sua ação educadora, do seu testemunho.

Na pregação, na administração dos Sacramentos, na atividade pastoral, o sacerdote continua gerando mentalidades nobres, comportamentos elevados, hábitos de Intimidade com Deus, de amizades sadias com os irmãos. Ele se torna pai de multidões.

A paternidade física é limitada a um número restrito de seres. A paternidade espiritual pode expandir-se indefinidamente. Depende só do amor e da dedicação do consagrado da criatividade e constância do seu zelo pastoral.

E como o pai e a mãe, que, quanto mais se preocupam com a moral dos filhos, mais se elevam eles mesmos, assim o consagrado, na em que multiplica esforço e criatividade para o crescimento espiritual e dos filhos espirituais, tanto mais se eleva ele mesmo nos pensamentos, e ideais, e se aperfeiçoa na bondade e nobreza de comportamento.

Conclusão.

O que foi exposto é experiência de vida de tantos sacerdotes e religiosas. E explica por que o Celibato continua tendo defensores convencidos e jovens idealistas o abraçam continuamente com esperança. O celibato é uma experiência de amor total, um dom de Deus, que exige uma entrega total, uma doação de amor que enche a vida!

 

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Por Padre Pio Milpacher, CJS. 

Congregação de Jesus Sacerdote

 

 

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