Formação Sacerdotal: O PADRE SE REALIZA? A lição da experiência.

FORMAÇÃO SACERDOTAL

Revista Voz Amiga | Volume 32 | Nº 1 | Ano 2022

 

O PADRE SE REALIZA? A LIÇÃO DA EXPERIÊNCIA.


 

Fotografia: freepik.com

Um dia, conversando com um amigo padre, que não via há bastante tempo, depois de me ter falado de muitas coisas que fazia, até com bastante entusiasmo, lancei-lhe uma pergunta final: “Então, posso concluir que você está satisfeito?”

Com surpresa, ele mudou de tom e me disse com ênfase: “Ah, não! Eu me sinto muito frustrado! Não me sinto realizado em nada! “

Recolhi numerosas dessas confidências; há bastante padres que se  declaram frustrados, vivem insatisfeitos, até parecem tristes. E eu pessoalmente lutei e pensei muito para analisar e resolver o problema da insatisfação.

O padre hoje, tem condição de estar satisfeito?

O primeiro passo é contentar-se.

Arquivo Pessoal da Congregação de Jesus Sacerdote.

Depois de muto pensar, cheguei a uma conclusão que parece ridícula, mas, para mim um princípio fundamental de filosofia existencial: “para estar contente com a vida, é preciso contentar-se com aquilo que a vida oferece.”

Encontrei muitos descontentes, e, analisando o porquê, cheguei à conclusão de que eles mesmos fabricavam seu descontentamento por desejos irreais, queixas absurdas, pretensões descabidas. Há muita gente inconformada com o próprio físico, com o temperamento, com os pais, e sonham ser outros. Ou pretendem passar na escola sem estudar, encontrar o trabalho no qual se ganha muito trabalhando pouco, ter amigos desinteressados sem eles merecerem.

Minha mãe me dizia: “Quem não se contenta com o honesto, perde o cabo e também o cesto”. E insistia dizendo que na vida é preciso se contentar com o pouco. Ela era pobre, viúva, trabalhava muito, mas sabia agradecer a Deus por aquilo que tinha.

Arquivo Pessoal da Congregação de Jesus Sacerdote. Padre Pio Milpacher, CJS.

Agradecer a Deus! Experimentei isso muitas vezes. Quando, em lugar de me queixar por aquilo que me estava faltando, agradeci por aquilo que já tinha, me sentir aliviado. Lembro em particular um dia de noviciado, no qual tudo ia de água para baixo: um daqueles dias nos quais a gente está na fossa e tem vontade de amaldiçoar a vida, como Jó. Era o momento de ir à capela para a meditação, e fui com a vontade de desabafar com Deus, esvaziar o saco das recriminações que me parecia em direito de fazer… Entrei e comecei a oração, distraidamente, agradecendo e louvando por tudo de bom que tinha… depois de um pouco, percebi o erro: “Mas, que estou fazendo?…  Vou continuar assim mesmo!” E continuei a ladainha dos          louvores e agradecimentos… enquanto me sentia aliviado e concluía: “No final das contas, se posso ainda dar-me ao luxo de agradecer, a vida não é tão ruim como parece!”

Aos muitos que se queixam, aconselho de agradecer a Deus, fazendo o inventário de tudo que de bom receberam dele. Somos ricos de dons, encontramos inúmeras oportunidades na vida, e não reparamos os lados positivos por uma certa mania de queixarmo-nos. A meu ver, existe até uma cultura de descontentamento, que coloca em evidência somente o que há de defeito na Igreja, na sociedade, no mundo; na aparência, para querer melhorar, na realidade, para semear desconfiança.

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A nossa vida vale!

Arquivo Pessoal da Congregação de Jesus Sacerdote.

Mas, na nossa vida de padres, com o avanço do paganismo, o abandono geral da prática religiosa, a crise da Igreja, as dificuldades do ministério, é possível estar contente? Não é um fechar os olhos à realidade, para refugar-se na Ilusão?

Estou muito preocupado com este problema e atento a não cair na ilusão. O que mais procuro é o conhecimento da situação real do mundo e da Igreja, para um juízo objetivo, que permita uma conduta construtiva. A humanidade de hoje é realmente aquela que é, a Igreja hoje está na situação que está: não muito prospera, nem alegre.

Mas, no passado, a humanidade e a Igreja, estavam melhor? Eu gosto da história, gosto de comparar…E não tenho inveja nenhuma dos tempos passados! Aliás, mais de uma vez me encontrei em choque com os jovens, que, segundo a moda atual, colocavam tanto em evidência as injustiças da sociedade atual e eu evidenciava os progressos sociais que a sociedade fez e está fazendo, as oportunidades que oferece às pessoas que querem melhorar… E no final conclui: “Admiro-me que eu, com setenta anos, tenha que defender os tempos atuais frente a jovens, quando normalmente os velhos choram o passado e os jovens são ufanistas!”

Acho que na nossa vida de padres temos muitos motivos para viver satisfeitos. Eu vejo o mundo como um campo de luta entre as forças do bem e as do mal. Apesar das deficiências da Igreja e do ambiente, das nossas deficiências e as dos nossos colaboradores, temos inúmeras oportunidades de ajudar as pessoas, de semear fé e esperança, de levar uma mensagem de alívio a pessoas abatidas, de orientar jovens e crescer no bem.

Não há atraso da Igreja ou injustiças do mundo que nos impeça de semear coragem, de ensinar o caminho do bem… Não estamos virando o mundo como da noite para o dia. Mas combatemos do lado do bem, vivemos vida honesta e frutuosa, estamos solidários com todos os idealistas e benfeitores da humanidade, dando o melhor de nós mesmos.

A nossa vida vale! Uma pessoa pode dizer-se satisfeita quando vive com dignidade, quando encontra campo para fazer o bem, e vê que sua obra não é em vão. E penso que qualquer padre, se de verdade quiser cumprir sua tarefa, tem campo para investir bem o tempo e os talentos que Deus lhe confiou e algo bom sempre brota ao redor dele.

Deixei de lado de propósito as razões teológicas da amizade de Deus, a assistência da Providência divina, as promessas eternas de Cristo, as riquezas de sua graça… Neste nível encontraríamos as razões da nossa felicidade. Por isso, afirmo o pessimismo, na nossa vida, não tem razão alguma de ser.

 

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Por Padre Pio Milpacher, CJS. 

Congregação de Jesus Sacerdote

 

 

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