História de uma vocação – Noviço Michael Sylvert

 

Muitas foram as experiências: vitórias, conquistas, sofrimentos, perdas, … trabalho, estudo, mudanças (inclusive de países). Em tudo isso fui crescendo, amadurecendo e percebendo como é grande o Amor de Deus, também em minha história… NADA é mais forte do que a realização de uma vida totalmente doada pelo Reino de Deus.”

 

 

Os primeiros passos na fé e na vida eclesial

          Nasci na cidade de Port-au-Prince, capital da República do Haiti[1]. De família cristã, meu pai era já viúvo, com cinco filhos; casou-se com minha mãe e tiveram mais cinco filhos. Desde pequeno fui criado por minha avó materna – com ela aprendi a fé, as primeiras orações (rezar a cada manhã, antes das refeições e ao me deitar), a devoção a Nossa Senhora (como a reza do terço e outras orações marianas); com ela, também aprendi a ir à Igreja – íamos todo domingo às 5h da manhã e muitas vezes durante a semana (sempre assim de “manhãzinha”!).

Foto divulgação: Cidade de Port-au-Prince

          Desde pequeno, participando na comunidade paroquial com minha avó, fui tomando gosto pelas coisas da Igreja e pela missão de evangelizar. Estive sempre envolvido nas atividades da minha paróquia, São Miguel Arcanjo: participei dos pequenos legionários e, mais tarde, também dos legionários adultos; cantei no coral paroquial e também participei do movimento Foyer Notre Dame de l’Engagement (movimento de animação juvenil). Por volta dos 16 anos, comecei a participar de um grupo diocesano de animação pastoral (grupo que se reunia uma vez ao mês para comunicações e planejamento conjunto de pastoral) – nele participei por cerca de 10 anos.

          Em todos esses anos de vivência na comunidade eclesial, fui experimentando a alegria do serviço e da missão. Aquela pequena semente dos primeiros anos, ainda conduzido por minha avó, foi crescendo em mim e levando-me a um envolvimento sempre maior. Já aí sentia dentro de mim uma inquietação e um desejo de servir a Deus.

 

Primeira provação

          Desde os meus 16 anos, meu pai começou a apresentar sinais de insuficiência cardíaca e outros problemas de saúde que foram sempre se agravando, apesar de todos os tratamentos. Precisaria submeter-se a uma cirurgia, mas o problema cardíaco trazia dificuldades; não fazendo a cirurgia um câncer evoluiu e, dois anos depois, acabou falecendo. Neste período sempre fui eu que o acompanhei nas consultas e tratamentos; era sempre eu que estava ao seu lado no hospital e em todos os momentos.

          Após a morte do meu pai, ficando minha mãe viúva com cinco filhos pra criar (eu sou o segundo mais velho), tive que começar a trabalhar para ajudar minha mãe. Fui, primeiramente, trabalhar com dois dentistas franceses da Socorro Dental Internacional (SDI) e fiquei neste trabalho por vários anos; depois fui trabalhar como “fiscal” da assistência social, visitando várias obras sociais.

          Durante esse período, com a necessidade de ajudar minha família, tive que deixar um pouco de lado o meu projeto vocacional; ainda que sempre tenha mantido contato com a Igreja e com os padres que, muitas vezes, continuavam a me chamar e incentivar na vida vocacional. Mesmo com meus compromissos de trabalho e as preocupações com a família, mantive minha participação nas atividades e encontros paroquiais e nunca deixei de fazer meus retiros – pelo menos um em cada semestre.

 

Caminhada Vocacional

          No início de 2003, um de meus irmãos começou a trabalhar e ajudar em casa, assim, eu pude dedicar-me ao chamado que sentia em meu coração para um serviço maior à Igreja. Neste ano, participei dos encontros vocacionais junto à Congregação Missionários Cristo Maria Afonso (MCMA ), fundada no Haiti por padres redentoristas, com o carisma da evangelização das famílias. Em outubro desse ano, deveria iniciar  o aspirantado, mas dificuldades próprias do país impediram a sua abertura. .

          Assim, no ano seguinte, 2004, iniciei o aspirantado, ali mesmo na capital. Éramos 8 aspirantes e nossas obrigações se concentravam em estudos (Bíblia, Espanhol, …), trabalhos na casa, pastoral na paróquia.

          Já no ano seguinte, 2005, iniciei os estudos do Curso de Filosofia no Seminário de Cazeau, sempre na capital. Concluí a faculdade em junho de 2008. Neste mesmo ano (outubro), iniciei os estudos da Teologia no Instituto Centre Inter-Instituts De Formation Religieuse (CIFOR ).

Segunda Provação

Foto Divulgação: Dra. Zilda Arns

          Em 12 de janeiro de 2010, enquanto eu cursava o segundo ano de teologia, aconteceu o famoso Terremoto no Haiti, no qual faleceu a Dra. Zilda Arns, uma das fundadoras da Pastoral da Criança no Brasil[2]. Este dia ficará marcado para sempre na vida dos haitianos e na minha de maneira muito particular.

          A Dra. Zilda Arns foi ao CIFOR para uma palestra com os estudantes e outros convidados (religiosas e religiosos, seminaristas diocesanos e de outras congregações, formadores, etc.); por volta das 17h, já no fim da conferência (era o momento dos agradecimentos), começamos a sentir o tremor de terra – muitos corriam, muitos não entendiam o que estava acontecendo … e tudo veio abaixo! Eu tive a graça de conseguir correr para fora do prédio sem ser atingido, apenas um golpe no olho direito.

          Este terremoto foi devastador; arrasou várias cidades, mas sobretudo a capital. Por toda parte havia desespero, pessoas feridas, pessoas desaparecidas sob os escombros, e muitos mortos. Após este desastre terrível, como podem imaginar, o país entrou num colapso quase total – muita destruição, faltava quase tudo (água, alimentos, remédios, médicos, energia elétrica, …).

          Após o terremoto, mais uma vez fui obrigado a interromper a caminhada vocacional – até porque, com a morte do fundador, a pequena Congregação se dissipou. Todo o país entrou em processo de reconstrução e de discernimento sobre o que seria para o futuro; assim também eu era obrigado e repensar as possibilidades para prosseguir minha vida e meu projeto vocacional. Ajudou-me muito neste momento, o acompanhamento com uma psicóloga na República Dominicana (país vizinho ao Haiti) – foi um tempo de amadurecimento, discernimento e, sobretudo, muita oração pedindo ao Senhor que me iluminasse em meu caminho.

 

Deus ainda fala por mensageiros

          Foi exatamente, neste tempo em que rezava muito e pedia a Luz de Deus, que me chegou uma carta de um amigo seminarista dizendo que no Equador, Dom Victor Corral, bispo da Diocese de Riobamba, estava acolhendo seminaristas do Haiti para continuarem seus estudos e caminhada vocacional. Este mesmo amigo acertou tudo para mim no Equador e eu segui para lá, a fim de continuar meus estudos. Assim, concluí o curso de teologia no ano de 2013, no Seminário Diocesano Cristo Sacerdote, no Equador.

          Enquanto estudava e terminava o curso, Dom Victor Corral completou os 75 anos e tornou-se bispo emérito; seu sucessor, ao término dos estudos, foi do parecer de que eu não deveria ficar no Equador, mas voltar para o Haiti.

 

Terceira Provação

          Voltando para o Haiti, encontrei o país ainda em desolação – muitas casas ainda destruídas, pobreza, doenças (epidemia de cólera); também na vida eclesial havia muitas dificuldades – padres e seminaristas morando na casa das famílias, pois as casas paroquiais e seminários haviam sido destruídos. Missas celebradas em galpões adaptados, pois muitas igrejas também foram destruídas.

          Não tendo mais a Congregação a que eu pertencia, fui procurar o bispo da minha diocese. A situação era muito difícil naquele momento e o Conselho Presbiteral me sugeriu que procurasse uma diocese ou Congregação fora do Haiti.

          E foi exatamente neste momento que minha mãe, já um pouco adoentada desde antes da minha chegada, começou a piorar e necessitar de meu auxílio (como anos atrás já havia feito com meu pai). Foram quase três anos de cuidados e dedicação a ela em sua enfermidade: consultas médicas, exames, terapias e todo tipo de tratamentos. Também nos serviços da casa eu precisava me desdobrar para ajudar.

          Na dimensão vocacional, apesar de todo cuidado com minha mãe e com a casa, eu continuava meu apostolado, a convite do Padre Desca Atilus, ajudando na paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus.

 

Partida para o Brasil

          Em 2013, quando aconteceu a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro, eu deveria participar com um grupo de jovens do Equador; porém, estando no último ano da teologia, cheio de trabalhos para entregar e provas a fazer, acabei não podendo participar – mesmo já estando com o visto pronto.

Foto divulgação: Jornada Mundial da Juventude Rio de Janeiro

          Em 2016, três anos já haviam se passado desde a JMJ e o meu visto para o Brasil estava perto de expirar (o visto que eu obtivera era para cinco anos); minha mãe tinha melhorado de saúde; um dos meus irmãos estava morando no Brasil; tudo parecia facilitar uma visita a esta terra. Assim, no dia 9 de julho de 2016 cheguei ao Brasil, em São Paulo. Acolhido por meu irmão, no aeroporto, fomos para Carapicuíba/SP, onde ele mora com sua família.

Foto divulgação: Catedral de Osasco

          Em Carapicuíba comecei a frequentar a Comunidade Imaculada Conceição, da Paróquia São Roque. Ali fui muito bem acolhido pelas pessoas e, especialmente, pelo pároco, Padre Adilson Dias Rampaso. Fui me envolvendo nas atividades da comunidade: missas, catequese, liturgia, grupos de rua (CEBs) e em conversa com o Padre Adilson contei minha história e caminhada vocacional. Animado por ele, iniciei um caminho vocacional junto a Diocese de Osasco/SP, mas ao final de dois anos (final de 2017), o bispo achou melhor que eu não entrasse para o seminário diocesano. Certamente, foi uma grande decepção, mas o incentivo constante do Padre Adilson não deixou que eu perdesse a esperança ou esfriasse no ardor vocacional.

 

 

A Congregação de Jesus Sacerdote

          Ali mesmo, na Paróquia São Roque, em Carapicuíba, conheci o Everton Oliveira, coordenador dos Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão e que havia sido seminarista na Congregação de Jesus Sacerdote. Ele me falou da Congregação e seu carisma todo voltado para a santificação do clero – imediatamente me animei com aquela proposta carismática, comecei a pesquisar e a querer saber mais sobre a Congregação.

          Marcamos um dia e fui com o Everton conhecer a comunidade da Congregação em Osasco, onde conversei com o Padre Adenilson de Oliveira e o Ir. Pedro Paulo Espírito Santo (seminarista), que era o promotor vocacional. Como eu já era formado em filosofia e teologia, era um caso novo (diferente), na Congregação e, assim, foi necessário consultar o Padre José Antônio de Souza, Delegado Geral para o Brasil. Poucos dias depois, pude me encontrar pessoalmente e conversar com o Padre José Antônio e contar toda a minha história; assim, após uma frutuosa conversa, combinamos o início do acompanhamento vocacional.

          Em 2019, após pouco mais de 6 meses de um sério acompanhamento, fui acolhido na Comunidade da Marília/SP – por toda minha história formativa, foi-me proposto fazer 6 meses de aspirantado e 6 meses de postulantado. Estes meses foram muito ricos, pude conhecer um pouco mais da história da Congregação, as origens carismáticas, um pouco da vida do fundador e, ainda, participar das atividades pastorais desenvolvidas por aquela comunidade, sobretudo na Paróquia São Judas Tadeu.

 

          No início deste ano (2020), iniciei o primeiro ano do Noviciado, na comunidade de Barretos/SP. O Noviciado é um tempo especial na vida de todo candidato à Vida Religiosa; é nele que se dá o estudo profundo das origens carismáticas da Congregação (desde a inspiração do fundador), o nascer e crescer da Congregação, a teologia da Vida Religiosa, os Conselhos Evangélicos e, assim, vai se formando e fortalecendo o coração para a plena consagração religiosa. Acompanhado pelo Padre Angelo Fornari, meu mestre neste primeiro ano de noviciado, acredito que auxiliado pela graça de Deus, pelas orações dos amigos e pela minha própria vida de oração, estou dando passos concretos na compreensão do chamado que o Senhor me faz e nas minhas atitudes concretas de resposta a este chamado, tendo em vista a minha consagração religiosa.

          Nesta experiência de Noviciado é ainda muito significativa a possibilidade de estar nesta comunidade de Barretos, que acolhe padres diocesanos e religiosos para um ano sabático; é a vivência concreta do carisma da Congregação – acolher, rezar e trabalhar para a santificação do clero.

          Como vocês podem perceber, muitas foram as experiências: vitórias, conquistas, sofrimentos, perdas, … trabalho, estudo, mudanças (inclusive de países). Em tudo isso fui crescendo, amadurecendo e percebendo como é grande o Amor de Deus, também em minha história. Ficou sempre mais claro que nem trabalho, nem ganhos financeiros, nem vitórias e conquistas profissionais, nem viagens, … NADA é mais forte do que a realização de uma vida totalmente doada pelo Reino de Deus.

 

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Michael Sylvert. 
Noviço da Congregação de Jesus Sacerdote.

 

 

 

[1] O Haiti é um país caribenho, localizado na América Central, ao lado da República Dominicana.

[2] Neste terrível terremoto faleceu também o P. Guy Jean Pierre, fundador da Congregação MCMA. Ele não estava na palestra, mas também a Casa Religiosa foi atingida e destruída. A pequena e nascente Congregação se dissipou.

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