A Voz do Fundador – Edição 1

Uma vida a serviço dos Padres

 

 

No paraíso não descansarei, escrevia, enquanto houver um só Padre, que precise de ajuda na terra 

 

 

     “Eu não sei descrever as emoções que provo quando, no meu serviço pastoral, me encontro diante dos meus colegas padres”. Era a confissão que Padre Venturini fazia aos seus filhos. Era a prova evidente de seu carisma específico. O desejo de ajudar os padres a viverem sua missão fiéis e felizes, tinha se tornado o anseio, mais forte, até único, de sua vida.

     Nascido em 1886, em Chioggia, numa cidade perto de Veneza, desde os primeiros anos tinha percebido o atrativo para o sacerdócio. Atrativo que se tornou cedo um chamado irresistível.

     Iniciou em Chioggia, no seminário de sua diocese, e completou em Pádua os estudos para o sacerdócio. Foi ordenado no dia 24 de agosto de 1910. Desde o seminário e nos seus primeiros anos de apostolado, mostrou um entusiasmo particular pela sua missão, e um desejo de viver com generosa fidelidade seus compromissos de padre.

 

A inspiração

     Foi, porém, a dois anos de ordenação que recebeu seu chamado particular. Jesus Sacerdote revelou a Pe. Mário um dos anseios mais profundos do seu Coração: a santificação dos seus ministros, a fidelidade daqueles que tinha escolhido como colaboradores e amigos. E o convidou a partilhar o mesmo desejo.

     Aconteceu no dia 7 de março de 1912. Contemplando um quadro de Jesus no Horto das Oliveira, o jovem padre sentiu no seu coração como uma descarga de eletricidade espiritual, um choque o atordoou, o comoveu, o fez chorar e o encheu de comoção forte por alguns dias: “Jesus foi abandonado também por aqueles que mais amava!”

     Saiu daquela emoção, sem dúvida uma forte experiência mística, com uma decisão. De agora em diante sua vida teria um objetivo fundamental: a fidelidade sua, a santidade e a fidelidade de todos os ministros da Igreja.

     No dia 3 de maio de 1917, depois de uma caminhada de discernimento não fácil e de uma luta insistente contra a consciência de sua pobreza e indignidade, rompeu toda indecisão e se ofereceu a Jesus com um voto específico: deixará qualquer outro serviço na Igreja, para colocar-se exclusivamente a serviço dos padres.

     Não caminhará porém sozinho. O  Espírito lhe tinha infundido um anseio de uma nova paternidade. Terá que transmitir a filhos e filhas, religiosos e  leigos, o seu carisma.

     Procurou preparar-se para a nova missão com o estudo, adquirindo em Roma o doutorado em teologia, mas, sobretudo por um aprofundamento de sua intimidade para com o Coração Sacerdotal de Jesus e uma devoção a Maria tipicamente sacerdotal. Foi um apóstolo da Maternidade Sacerdotal de Maria.

A nova Obra

     No dia 7 de dezembro de 1926 podia, finalmente, celebrar a fundação da sua primeira família religiosa: a Congregação de Jesus Sacerdote.

     Seguirá, pouco depois, a Família das Irmãs e teria começado cedo, também, o grupo de leigos e leigas, que queriam partilhar o mesmo carisma do fundador.

     Não teve uma vida fácil. Apóstolo e profeta da santificação dos padres, como todo profeta teve que enfrentar incompreensões, dificuldades. Teve muitos amigos (e maravilhosa era sua capacidade de amizade), sobretudo entre os padres, mas encontrou também pessoas que não compreendiam, criticavam, criavam obstáculos: colegas e, também, superiores.

     Teve que mudar de diocese, reconstruir depois de momentos de crise, enfrentar dificuldades de todo tipo: econômicas e pessoais, morais e organizativas.

Apóstolo da Palavra e da imprensa

     Era aberto a todas as possibilidades de ajuda aos padres. Ficamos admirados a pensar em tudo aquilo que conseguiu realizar, sem muitos recursos,  sem muita ajuda por parte de colaboradores. Abriu casas para acolher os padres idosos, de padres necessitados de repouso e de uma reestruturação humana e espiritual. Pregou retiros na Itália toda. Fundou três revistas de espiritualidade, uma delas, “Seminarium”, para os educadores dos Institutos de formação eclesiástica, a mais ousada por aqueles tempos. Aceitou a responsabilidade de presidir duas Associações em favor do Clero (uma delas, a “União Apostólica do Clero”, passou pelo seu zelo de 6 a 12 mil padres afiliados).

     Levantando, quando em apuro, às 3:00 de madrugada, conseguia dar conta dos artigos que suas revistas ou a colaboração a outras publicações eclesiásticas exigiam.

     Viajou muito, não só para pregações, mas também para encontrar bispos e padres que pediam sua ajuda, seus conselhos, uma sua presença nos presbitérios ou nas casas de formação.

     Encontrou muitos padres, com os quais fazia logo amizade e construía uma profunda relação espiritual. Muitas viagens, cuja motivação descobríamos, às vezes, por acaso foram para encontrar padres que viviam momentos de dificuldade, ou que tinham deixado o ministério. Vivia uma preocupação paterna e um sofrimento particular para com eles, um desejo de torná-los conscientes de sua dignidade e responsabilidade, de infundir neles esperança num futuro de renovada fidelidade. Foi este o seu ministério mais querido e escondido, sem dúvida o mais precioso.

     Escreveu muito. Não dá para calcular quantas cartas redigiu no seu esforço de acompanhar espiritualmente os que se declaravam seus filhos espirituais, para animar, alertar, confortar. De volta das suas viagens, seu escritório sempre o esperava, com muitos apelos a responder. Foi cuidado particular dos seus filhos recolher estas cartas, mas muitas ficaram desconhecidas, perdidas nos segredos de uma intimidade que o Padre e os filhos guardaram no segredo de seu coração.

     Teve a coragem de lançar, com a aprovação e a bênção do Papa, o Dia de Santificação Sacerdotal. Antes, em 1947, só para a Itália, no ano seguinte para o mundo todo, enviando a todos os bispos do mundo o convite para celebrarem este dia com o seu presbitério. Iniciativa que repetiu todos os anos, até a morte.

     Viajou muito (tinha recebido das Ferrovias Italianas passagem livre para todas as linhas de trem…), por compromissos de ministério e para acompanhar suas comunidades. Foi uma pessoa eminentemente dinâmica e realizadora.

Um homem de Deus

     Mas, antes de tudo, foi uma pessoa de muita espiritualidade, de intensa oração e de grande, profunda comunhão com Deus. Esta era uma característica que logo aparecia nele, e fazia uma impressão profunda. Transmitia, em maneira espontânea, a presença de Deus nele. Respirava-se ao encontrá-lo. Tinha o anseio de ser santo, de ser amigo do Coração Sacerdotal de Jesus. Passava, desde seminarista, longas horas diante do sacrário ou da Eucaristia exposta solenemente. Celebrava as suas missas com uma intensidade de concentração, que edificava. Quando falava da Eucaristia, do Sacerdócio, do amor de Maria para com os seus filhos padres, se transformava.

     Lembro-me de um padre, que tentava acompanhar uma pregação de Pe. Venturini numa igreja bastante grande e cheia de padres.. O microfone, como acontece, não funcionava e não dava para entender nenhuma palavra: “Não se entende nada, mas dá para ver que é um santo!” Exclamava comovido.

     Quis que seus Filhos e suas Filhas fossem animados pelo mesmo ideal, pelos mesmos anseios de santidade e de oferta pelos padres. Aceitou, com dor profunda, que Jesus tirasse da sua Família alguns deles muito cedo e ainda jovens, mas consolado em ver neles a disposição de se tornarem ofertas pela santificação dos ministros consagrados.

     Aceitou as numerosas dificuldades físicas, que a idade e doenças particulares lhe traziam. Sofreu com paciência , tornando sempre mais vivo seu desejo de chegar ao momento de sua última oferta (“A minha Missa mística” – dizia). Queria encontrar-se com Deus e, livre finalmente do peso das suas infidelidades, sem o medo contínuo de “estragar” os projetos de Deus, interceder pelos padres do mundo inteiro e pelas suas Famílias espirituais.

     “No paraíso não descansarei, escrevia, enquanto houver um só Padre, que precise de ajuda na terra “

     O Coração de Jesus acolheu seu pedido no dia 18 de março de 1957, no momento de começar a festa de São José, seu protetor e colaborador particular.

(Publicado originalmente na edição especial em Março de 2007)

 

 

Padre Angelo Fornari, CJS.
Superior da casa de Barretos – SP, e responsável pelo trabalho específico com os sacerdotes. Psicopedagogo e Professor Emérito da Faculdade João Paulo II.

One thought on “A Voz do Fundador – Edição 1

  1. Que apostolado maravilhoso. Que belo gerar nos sacerdotes propósitos de generosa fidelidade. “Jesus foi abandonado também por aqueles que mais amava!”: que os sacerdotes sejam os mais dedicados amigos de Jesus em todas as horas, especialmente de “pagar o preço pela redenção”.

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