Formação Teológica – Virgem Maria, mãe dos sacerdotes, figura da Igreja

Revista Voz Amiga | Volume 31 | Nº 3 | Ano 2021

 

 

A presença amorosa e servidora da Virgem Maria na Igreja é um fator que ilumina a caminhada cristã e enche de esperança o coração do povo de Deus. De fato, desde os primeiros séculos, a Igreja sabe e reconhece que a Santíssima Virgem “tem um lugar bem preciso no plano da salvação”,[1] pois, o próprio Criador, olhou para a sua humildade e fez nela maravilhas (cf. Lc 1,48;49). Consciente disso, “a Igreja católica, guiada pelo Espírito Santo, honra-a como mãe amantíssima, dedicando-lhe afeto de piedade filial”.[2]

Maria é o protótipo e o modelo acabado da Igreja.[3] Ela é a mãe dos sacerdotes que “como ela, estão comprometidos na missão de proclamar, testemunhar e oferecer Cristo ao mundo”.[4] O seu exemplo de fé, compromisso e fidelidade ao projeto de Deus deve servir de inspiração para aqueles que se dedicam de corpo e alma ao serviço divino pela Sagrada Liturgia e uma vida de doação aos homens a exemplo de Jesus. Ela, “é a mãe do Sumo e Eterno Sacerdote, a Rainha dos Apóstolos, a força dos presbíteros no seu ministério”,[5] que em sua vida e vocação “devem amá-la e venerá-la com devoção e culto filial”.[6]

A grandeza dessa mulher tão santa está impressa na própria vontade daquele que a escolheu desde muito antes para ser a Mãe do Verbo com o qual criou todas as coisas.[7] A própria Virgem, inspirada pelo Espírito Santo, expressa no Magnificat a sua gratidão ao Altíssimo que derruba do trono os poderosos e eleva os humildes (cf. Lc 1,52), colocando-se assim como a menor de todas as servas de Deus que por graça deu-lhe a dádiva pela qual todas as gerações a proclamariam bendita (cf. Lc 1,48). A humildade foi uma virtude sempre presente na sua vida, de tal modo que chamou a atenção de Deus, pois, “o que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria ganhou por humildade, o que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência”.[8]

Na sua doação sem medidas, Maria gerou, deu à luz e acompanhou o seu filho como uma companheira generosa e servidora fiel, cooperando “de modo singular pela obediência, pela fé, pela esperança e a caridade ardente, na obra do Salvador para restaurar a vida sobrenatural das almas”.[9] Convém à Igreja, fiel a Sagrada Escritura e a Tradição, honrá-la e amá-la como a Mãe de Deus e, de fato,  “ninguém pode dizer coisa mais nobre dela e para ela, mesmo que tivesse tantas línguas quanto existem folhas e ervas, estrelas no céu e areia no mar.”[10] No título Mãe de Deus estão contidas, por excelência, todas as glórias de Maria que em sua vida jamais se entregou a outro senhor, não sendo nem por um instante escrava de Lúcifer, mas, pertencendo toda a vida unicamente a Deus,[11] de tal modo que o próprio Deus viu a graciosidade (cf. Lc 1,30) daquela que é bendita entre todas as mulheres (cf. Lc 1,42).

Através da maternidade divina de Maria, Deus, Eterno e todo poderoso, enviou o seu filho ao mundo para que todos os homens recebessem a graça da adoção filial (cf. Gl 4,4-5). Nesse sentido, Deus, que não age contra a liberdade humana, encontrou nela o sim generoso que permitiu o cumprimento das promessas feitas aos antigos pais. Essas promessas começam a cumprirem-se “quando o Filho de Deus assumiu dela a natureza humana, para, mediante os mistérios da sua carne, libertar o homem do pecado”.[12] Dessa forma, pode-se dizer que “o ‘sim’ de Maria é a porta através da qual Deus pôde entrar no mundo, fazer-se homem. Assim, Maria está real e profundamente comprometida no mistério da Encarnação, da nossa salvação”.[13]

O mistério desta Virgem santa, humilde e obediente, deve expressar-se na vida da Igreja, de quem ela é tipo, pois, “a Igreja procede seguindo as pegadas do itinerário percorrido pela Virgem Maria, a qual ‘avançou na peregrinação da fé, mantendo fielmente a união com o seu Filho até à Cruz’”.[14] Como ela, a Igreja precisa sempre ouvir a voz de Deus e dar o seu sim prontamente à vontade divina (cf. Lc 1,38) para que os homens do nosso tempo conheçam o rosto misericordioso do Pai e  cheguem à plenamente do amor. A seu exemplo, a Igreja precisa ensinar os homens a, mesmo quando se parece fugir da razão, acreditar, confiar e fazer tudo o que o Senhor lhes disser (cf. Jo 2,5). Como ela, a Igreja necessita, mesmo na hora mais dolorida, está de pé, no calvário da vida, para receber a humanidade e assumi-la como filha (cf. Jo 19,26). Destarte, a Igreja, “em certo sentido, aprende de Maria também o que é a própria maternidade: ela reconhece esta dimensão maternal da própria vocação como algo ligado essencialmente à sua natureza sacramental”.[15]

Assim, enquanto peregrina na terra, “a Igreja, contemplando a santidade misteriosa de Maria, imitando a sua caridade e cumprindo fielmente a vontade do Pai, pela palavra de Deus fielmente recebida, torna-se também ela mãe”[16] daqueles que Deus lhe confiou, gerando, pela pregação e pelo batismo, “para uma vida imortal, os filhos concebidos do Espírito Santo e nascidos de Deus”.[17]

 

 

 

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Ismael Félix
Seminarista no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Desterro de Jundiaí – SP, cursou Filosofia pela Faculdade São Bento de São Paulo (2015 – 2017) e atualmente é aluno do 5º semestre de Teologia pelo Centro Universitário Salesiano, Unisal, campus Pio XI.

 

 

[1] JOÃO PAULO II. Redemptoris Mater. Carta Encíclica sobre a Bem-aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho. (25.03.1987). Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana. n. 1.

[2] CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA Lumem Gentium sobre a Igreja. In: Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997n. 53.

[3] Cf. Ibid.

[4] BENTO XVI. Audiência Geral 12 de agosto de 2009. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090812.html>. Acesso em 08 set. 2021.

[5] DECRETO Presbyterorum ordinis sobre o ministério e a vida dos presbíteros. In: Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997. n. 18.

[6] Ibid.

[7] Cf. BERNARDINO DE BUSTIS. Ofício da Imaculada Conceição

[8] LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT (Santo).  Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis, RJ: Ed, Vozes. p. 41.

[9] CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA Lumem Gentium sobre a Igreja. n. 61.

[10] LUTERO, Martim. Magnificat: o louvor de Maria. Aparecida, SP: Ed. Santuário; São Leopoldo, RS: Ed. Sinodal, 2015. p. 64.

[11] Cf. AFONSO DE LIGÓRIO (Santo). Glórias de Maria. Aparecida, SP: Ed. Santuário, 1989. 3. ed. p. 236.

[12] CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA Lumem Gentium sobre a Igreja. n. 55.

[13] BENTO XVI. Audiência Geral 12 de agosto de 2009. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090812.html>. Acesso em 08 set. 2021.

[14] JOÃO PAULO II. Redemptoris Mater. n. 2.

[15] Ibid. n. 43.

[16] CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA Lumem Gentium sobre a Igreja. n. 64.

[17] Ibid.

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